Comportamento de acasalamento em animais

Claudicação em fêmeas suínas gestantes: conceitos gerais e seu efeito na prole

2020.09.23 21:06 Vedovati_Pisos Claudicação em fêmeas suínas gestantes: conceitos gerais e seu efeito na prole

O suíno, responsável pela maior produção de proteína animal do mundo, é uma espécie de enorme complexidade em termos comportamentais. Estudos em situações naturais (STOLBA; WOOD-GUSH,1989) demonstraram que as matrizes e sua prole convivem em grupos, e só se juntam com os machos em temporada de acasalamento. Alguns comportamentos naturais da espécie incluem fuçar, forragear, chafurdar e gerar vínculos amistosos com seus semelhantes. Próximas ao parto as matrizes constroem ninhos que podem alcançar dezenas de quilos de material (feno, galhos, serragem etc.); muitos dos comportamentos são comprometidos pelos sistemas de produção adotados na atualidade.
O sistema de produção suína apresenta enormes desafios para todos os envolvidos, principalmente para os animais. Um dos desafios que tem chamado a atenção da comunidade que trabalha com esta espécie, é a claudicação. A claudicação é um evento doloroso que indica dificuldade no andar do animal (coloquialmente chamada de manqueira) atingindo diretamente o bem-estar animal e, por consequência, o bolso do produtor. A claudicação é um motivo de descarte frequente em matrizes suínas, e estudos sugerem que aproximadamente 60% das matrizes se encontram claudicando no Brasil; ou seja, pelo menos quase três milhões de matrizes se encontram em situação de dor (IBGE, 2017). No mundo, as prevalências reportadas estão próximas dos 30% e o custo da claudicação gira em torno dos R$ 200 por matriz (PLUYM et al., 2013).
Sua origem, como em outras espécies, é multifatorial e, dentre os fatores, temos:
– Condições de alojamento inadequadas: muitos animais mantidos em densidades elevadas com
ambiente físico inadequado e alojados com a ausência de enriquecimento ambiental. Todos são fatores determinantes devido às lesões geradas, especialmente, durante e após da mistura de animais;
– Piso: abrasividade excessiva no chão altera negativamente a condição do casco nos suínos, especialmente durante períodos caracterizados por evidentes mudanças fisiológicas, como a gestação;
– Fatores sanitários e nutricionais: algumas toxinas, deficiências em vitaminas e minerais podem
afetar os ossos, cartilagem articular e qualidade do casco;
– Outros fatores como ausência de casqueamento, atrofia muscular por inatividade excessiva ou seleção genética sem levar em conta os aprumos dos reprodutores, aumentam a probabilidade de desenvolver claudicação.
As consequências da claudicação para o animal compreendem mudanças comportamentais, problemas de saúde e estados emocionais alterados, tudo isto diretamente relacionado com à dor.
Consequências comportamentais importantes incluem a redução da interação social e exploratória,
mudanças no comportamento alimentar e alteração na sequência e tempo para se deitar, com possíveis consequências para mortalidade de leitões. Por fim, as implicações fisiológicas desencadeiam respostas cardiovasculares e liberação de hormônios do estresse como adrenalina, noradrenalina e cortisol.
A dor tem um papel importantíssimo nestas mudanças secundárias geradas pela claudicação. Ela é uma condição desagradável e estressante que tem como ser detectada. Inicialmente, é importante conhecer o comportamento natural da espécie a ser avaliada, pois as primeiras mudanças no animal são de tipo comportamental: diminuição da atividade, maior reatividade ante estímulos estressantes, diminuição no consumo, afastamento do grupo e relutância ao apoio do membro afetado.
Existem metodologias validadas para determinar o grau de claudicação do animal, onde o observador precisa de treinamento prévio para determinar quantitativamente a severidade desta dificuldade motora. Procedimentos mais complexos usados pela ciência, como medição de hormônios de estresse, podem ser aliados para melhor compreensão dos desafios fisiológicos em que o animal se encontra.
Qual é a relação da dor com o desenvolvimento dos leitões? Ela tem efeito nos leitões que estão se
formando dentro da matriz?
A resposta é sim. Como em todo mamífero, situações de estresse durante a prenhez sem possibilidade de adaptação, geram efeitos negativos no desenvolvimento do feto. Por exemplo, se uma mulher passar por estresse excessivo durante a gestação, e mais especificamente, durante o momento em que o sistema nervoso central do feto está se desenvolvendo, consequências graves podem acontecer. Crianças com dificuldades emocionais, agressividade excessiva, problemas de atenção e memória, são algumas sequelas que o estresse desmedido pode gerar nesse novo ser.
O Centro de Estudos Comparativos em Saúde, Sustentabilidade e Bem-Estar – CECSBE, da Universidade de São Paulo em conjunto com a Universidade de Teramo (Itália), está trabalhando na
identificação destas consequências em leitões vindos de matrizes que claudicaram durante sua gestação.
Em situações normais, os hormônios de estresse, como o cortisol, são inativados na placenta para evitar os possíveis danos ao feto, mas se estes níveis superam a capacidade que a placenta tem para inativar, os hormônios começam a passar de forma livre, alterando estruturas cerebrais em formação, as quais se relacionam com o mencionado anteriormente, memória, cognição, agressão, e inclusive medo.
Resultados preliminares da pesquisa de doutorado em desenvolvimento, mostram que leitões que nascem de fêmeas que claudicam durante sua gestação, são mais agressivos, têm frequências de vocalização diferentes, possivelmente sua sensibilidade à dor se encontra diminuída e apresentam menor peso ao desmame.
Estamos investigando a relação da claudicação das fêmeas suínas, com índices produtivos e indicadores de bem-estar nos leitões, como, conversão alimentar, ganho de peso, desempenho cognitivo, comportamento social, mortalidade e medidas de medo.
O universo da produção suína está cheio de desafios para os animais desde seu nascimento até o abate, incluindo desmame, mudanças do local de alojamento, mistura com animais desconhecidos, transporte, entre outros. Se tivermos a capacidade de criar animais mais adaptados para responder a tais desafios, as consequências serão benéficas para o produtor e para o animal. Ter animais mais calmos e ajustados, por exemplo, facilita o manejo de forma que tanto o animal como o produtor, seus trabalhadores e a cadeia produtiva vão se ver beneficiados.
Estendo meus agradecimentos para a equipe de pesquisa do CECSBE-USP, à Universidade de São Paulo, à Universidade de Teramo (Itália), ao processo FAPESP 2018/01082-4, e à empresa TOPGEN, quem abriu sempre suas portas em prol da pesquisa com suínos no Brasil.
Marisol Parada Sarmiento 1,& Adroaldo J. Zanella 2
1- Integrante do Centro de Estudos Comparativos de Saúde, Sustentabilidade e Bem-Estar, Departamento de Medicina Veterinária Preventiva e Saúde Animal, Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, Universidade de São Paulo, Campus Pirassununga. Doutoranda em Medicina Veterinária, Saúde Pública e Bem-estar Animal, Faculdade de Medicina Veterinária, Universidade de Teramo, Itália
[[email protected]](mailto:[email protected])
2- Formado em medicina veterinária pela PUC, RS, Uruguaiana, em 1983. Doutorado pela Universidade de Cambridge, Reino Unido, onde completou o PhD em 1992, sendo o primeiro veterinário do mundo com doutoramento em bem-estar animal. Estudei indicadores de bem-estar animal em suínos, em particular mudanças no sistema dos “opióides” endogenos, no cerebro, que estão ligadas a transtornos psiquiátricos em seres humanos. Pos-doutorando, na Alemanha, na Ludwig-Maximilians-Universität München (1992-1996). Professor de bem-estar animal da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo. Coordenador do Centro de Estudos Comparativos em Saúde, Sustentabilidade e Bem-estar. Um estudioso para compreender atitudes em relação a dor e bem-estar em diferentes espécies animais.
Fontes:
PLUYM, L. M.; VAN NUFFEL, A.; VAN WEYENBERG, S.; MAES, D. Prevalence of lameness and claw
lesions during different stages in the reproductive cycle of sows and the impact on reproduction
results. Animal, v. 7, n. 7, p. 1174–1181, 2013.
STOLBA, A.; WOOD-GUSH, G. D. M. The behaviour of pigs in a semi – natural environment. Animal
Production, v. 48, n. 2, p. 419–425, 1989.
IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2017. Pesquisa de Pecuária Municipal, Brasil.
Para prevenção problemas de cascos em matrizes e reprodutores instale um piso de borracha Vedovati

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